FREE READ Ô Passos Perdidos

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FREE READ Ô Passos Perdidos ê Há neste livro duas personagens obsessivas e misteriosas Anna W uma mulher ue gosta de ilhas peuenas e nos leva a Santa Helena Malta e Diu; C Brandon um homem perdido em grandes espaços aruitectónicos e no amor não correspondido por Anna W enuanto percorre Paris várias cidades belgas Muniue Milão Bombaim e Bijapur As Há saída»A elegância de estilo as extravagâncias narrativas e o cosmopolitismo invulgar das suas personagens colocam Paulo Varela Gomes num lugar único da literatura portuguesa contemporânea«Estamos perante as mais belas páginas literárias ue Paulo Varela Gomes escreveu desde ue em 2013 publicou O Verão de 2012 São páginas de uma prosa soberba» António Guerreiro PúblicoLIVRO DO ANO 2016 Públic. Varela Gomes faleceu há umas semanas no dia 30 de Abril de 2016 Sabemos ue tomou a decisão de se dedicar plenamente à escrita uando soube do seu diagnóstico de cancro terminal A doença leva o mas ainda lhe dá 4 anos a partir do diagnóstico tempo suficiente para ue nos deixe além deste Passos Perdidos um livro de contos e mais três romances todos com carimbo da Edições Tinta da China de entre os uais se destaca Hotel publicado em 2014 e vencedor do prémio PEN Narrativa 2015Passos Perdidos é isolando apenas o fio narrativo uma história à volta de duas personagens Anna W e C Brandon ela francesa ele inglês passada sobretudo em movimento pela Bélgica por Malta pela Índia por uma colecção de sítiosMas no início não conhecemos C Brandon; no início Anna W está só na remota ilha de Santa Helena onde a morte de Napoleão durante o seu exílio de seis meses por lá traz à ilha atracção turística Peculiar é Anna W não tendo ualuer fascínio pelo imperador Francês ter escolhido cumprir funções de directora dos Domínios Nacionais Franceses num local onde a única razão para a França destacar para lá alguém se prende com os locais por onde Napoleão andou há uase 200 anos O ue leva Anna W a isolar se num local como este é o seu fascínio por ilhas fascínio ue marca o próprio momento em ue C Brandon e Anna W se conhecem no Panteão parisiense Enuanto C Brandon discursava para os seus alunos Anna W interrompe o para marcar as diferenças deste edifício para com auele no ual foi supostamente inspirado dizendo ue “O Panteão de Roma é como uma ilha e esta igreja não” Esta frase marca aliás um ponto de partida para as temáticas deste livroConhecem se nessa Paris de onde ela é natural mas os seus encontros esparsos e ao mesmo tempo regulares arrastam nos com eles para uma infinidade de destinos C Brandon busca pelo mundo as salas dos passos perdidos ou seja “salas de espera tanto dos tribunais como das estações de caminho de ferro e dos parlamentos lugares onde todos os passos estão efectivamente perdidos porue na nulidade desses espaços inertes sem função ue não seja servir outros espaços entra se na esperança de poder sair o mais depressa possível Neste sentido explica C Brandon as salas dos passos perdidos partilham com os cenotáfios e outros monumentos comemorativos como os arcos de triunfo o facto de serem espaços ue podem ser dedicados à distracção e até ao sono mas também à imaginação e à memória ou à observação do próprio espaço ocupações cuja inutilidade imediata e estatuto expectante tornam a aruitectura paradoxalmente mais visível do ue seria possível nos lugares onde as pessoas estão a trabalhar”A imaginação memória e observação espacial a ue o autor faz referência acima são presença assídua ao longo de toda a obra e aduirem um grau de destaue muito maior ue o dispensado propriamente à narrativa e às personagens O foco posiciona se sobre junção entre estes elementos e as constantes deambulações históricas filosóficas aruitectónicas culturais e por aí fora ue Paulo Varela Gomes tem tanto gosto e talento a fazer E fá lo uando uer e bem lhe apetece Interrompe constantemente a narração para acrescentar factos esclarecer detalhes contribuir com um pouco mais de informação sobre o ue está a servir de fundoReferências à vida do próprio autor são regulares principalmente auando da viagem à Índia onde mistura constantemente os acontecimentos presenciados por Anna W e C Brandon com os acontecimentos vividos por ele a sua mulher e um casal amigo durante a sua viagem à Índia É até bastante engraçada a forma como ele tenta mostrar uão diferentes ou iguais são as reacções tidas pelas personagens dos livros em relação às reacções tidas por ele pela mulher e o casal amigo uando face às mesmas situações Situações como esta levam a ue apesar de algumas diferenças seja difícil dissociar a personagem de C Brandon do próprio autor sentindo o leitor ue uando Paulo Varela Gomes não explícita a diferença entre o seu comportamento e o de C Brandon autor e personagem são o mesmoA própria busca pelas salas dos passos perdidos foi também uma busca de Paulo Varela Gomes ue referindo se a si próprio durante o livro afirma ue “o autor uando ainda se dedicava à elusiva prática da historiografia académica da aruitectura e da arte pensou ue gostaria de escrever em futuro incerto um livro acerca desse tema” Esse hipotético livro ganha forma neste livro ue se torna numa versão literária escrita dessas mesmas salas de passos perdidos Um espaço onde cabem imensas dimensões algumas aparentemente paradoxais e onde num romance as palavras acabam a destacar mais a aruitectura do ue por exemplo num livro onde as imagens sejam o foco Essas imagens não aparecendo de forma directa no livro acabam curiosamente por figurar sempre ao longo do mesmo de forma indirecta Somos freuentemente encorajados pelo autor a procurar online imagens do ue está a ser descrito culminando na ausência de descrições físicas das duas personagens principais Anna W e C Brandon ue nos são apresentadas como sendo cada uma iguais aos actores Alicia Vikander e Laurence Harvey Momentos desconcertantes ue fogem aos cânones do género E por falar em género é também desconcertante a forma como Paulo Varela Gomes se refere no feminino a uem está a ler como “a leitora” Se por um lado se poderia interpretar isso como uma idealização de um leitor mulher feminino ou como uma sugestão de ue são mais as mulheres ue lêem ue os homens esta referência ao leitor como entidade feminina parece se mais com uma tentativa de retirar a um homem a sua zona de conforto ue ao se ver referido como uma mulher é inegavelmente obrigado a uestionar se acerca do papel das designações de género

Paulo Varela Gomes ¾ 8 FREE READ

Há neste livro duas personagens obsessivas e misteriosas Anna W uma mulher ue gosta de ilhas peuenas e nos leva a Santa Helena Malta e Diu; C Brandon um homem perdido em grandes espaços aruitectónicos e no amor não correspondido por Anna W enuanto percorre Paris várias cidades belgas Muniue Milão Bombaim e Bijapur As suas motivações e os seus destinos jogam se entre a década de 1970 e os nossos dias e v. “Passos Perdidos” foi o último livro escrito e publicado por Paulo Varela Gomes recentemente falecidoDele havia já lido “Era uma vez em Goa” ue tem uma característica semelhante ao livro ue acabei de ler ambos são sem o serem explicitamente livros de viagens São ambos livros com uma história para contar mas os locais onde essas histórias ocorrem têm uma importância fundamental e são abundantemente descritosEm “Passos Perdidos” livro ue se nota e ue o próprio autor refere numa breve nota inicial ter sido escrito numa corrida contra relógio contra a morte PVG varia muito os locais fazendo nos visitar a ilha de Santa Helena cidades europeias como Antuérpia Bruxelas Milão e Muniue a ilha de Malta e alguns locais da India com destaue para a ilha de Diu Há ainda uma breve referência a Aguzmer em MarrocosTodos estes percursos muito interessantes suportam a história da sua personagem principal Ana W história essa ue se nota perfeitamente ter ficado incompleta como ue à espera de um próximo livro ue não vai haverAlém da história dessa complexa personagem surgem dois temas fundamentais – as ilhas uma paixão de Ana e a Aruitectura tema em ue o autor está particularmente à vontade pois na sua vida académica foi professor de Aruitectura e História de ArteCuriosa a intromissão constante de “dizeres” do autor na narrativa chegando mesmo por vezes a ser parte da história e os também constantes diálogos com os leitores e ue curiosamente são sempre direccionados para uma “leitora”Livro muito rico muito bem escrito como é normal na escrita de Paulo Varela Gomes é culturalmente muito importante as vezes ue me fez ir ao Google e ue me obriga a ler sem desculpas os outros dois livros ue publicouÉ escusado dizer ue recomendo vivamente este livro como já havia recomendado “Era uma vez em Goa”

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Passos Perdidosão‑se revelando nas deambulações pela história e geografia das ilhas pelas audácias da aruitectura e sempre subjacentes pelas memórias do autor«As ilhas sussurra para si mesma Anna W com a alma cheia de culpa e de impotência as ilhas são os lugares dos obsessivos e dos obstinados sítios onde voltam a germinar manias mortas como líuenes em pátios onde não bate o sol Nas ilhas há horizonte mas não. um romance ue também é um livro de viagensuatro estrelas e meia